{"id":10594,"date":"2022-01-03T20:58:49","date_gmt":"2022-01-03T19:58:49","guid":{"rendered":"https:\/\/ies.bio\/?p=10594"},"modified":"2022-01-04T15:01:25","modified_gmt":"2022-01-04T14:01:25","slug":"o-velho-e-a-rocha-para-uma-reflexao-ecoexistencial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ies.bio\/pt-br\/ecopsicologia-em-acao\/ecopsicoterapia\/o-velho-e-a-rocha-para-uma-reflexao-ecoexistencial\/","title":{"rendered":"O Velho e a Rocha &#8211; Para uma reflex\u00e3o EcoExistencial"},"content":{"rendered":"<h4><strong><span style=\"color: #d98c18;\"><span style=\"font-size: 14pt;\"><span style=\"color: #d98c18;\">A teia da vi<\/span><span style=\"color: #ff9900;\"><span style=\"color: #d98c18;\">v\u00eancia:\u00a0onde se funda a consci\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o e de n\u00f3s mesmos<\/span>\u00a0<\/span><\/span><\/span> \u00a0<\/strong><\/h4>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Tecendo uma vis\u00e3o Ecopsicol\u00f3gica, percebemos que explorar uma reflex\u00e3o sobre qualquer ser da Natureza conduzir-nos-\u00e1 sempre a uma reflex\u00e3o acerca de n\u00f3s mesm@s (quem observa e reflecte), porque percebemos correspond\u00eancias por analogia metaf\u00f3rica. Ou n\u00e3o ser\u00edamos tod@s vida em movimento interactivo e interdependente, e por isso tamb\u00e9m parte de um mesmo poema. <span style=\"color: #d98c18;\">\u00c9 a dial\u00e9ctica da exist\u00eancia terrena, que n\u00e3o \u00e9 apenas humana.<\/span><\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_10612\" aria-describedby=\"caption-attachment-10612\" style=\"width: 225px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-10612 size-medium\" title=\"Roca: Fojo.Serra da Arr\u00e1bida. Portugal\" src=\"https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Fojo_PT-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Fojo_PT-225x300.jpg 225w, https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Fojo_PT-768x1024.jpg 768w, https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Fojo_PT-696x928.jpg 696w, https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Fojo_PT-1068x1424.jpg 1068w, https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Fojo_PT-315x420.jpg 315w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-10612\" class=\"wp-caption-text\">Rocha: Fojo.Serra da Arr\u00e1bida. Portugal<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-family: verdana, geneva, sans-serif; font-size: 12pt;\">Partirei desta premissa de que <span style=\"color: #d98c18;\">somos tod@s parte de um \u00fanico poema<\/span> (que \u00e9 uma \u00fanica vida co-partilhada, independentemente de ser visada pela consci\u00eancia de quem a vive), e fenomenologicamente, com inspira\u00e7\u00e3o Husserliana (Husserl, 2001), irei explorar os paralelismos entre a Rocha, e a fase final da vida humana na terra a que chamaremos reverentemente de Velhice.\u00a0 Como estarei a referir-me a duas formas de vida \u201cgen\u00e9ricas\u201d, utilizarei mai\u00fasculas para as designar. Nelas caber\u00e1 a experi\u00eancia espec\u00edfica e particular de diferentes pessoas ou de diferentes tipos de rocha, mas esse exerc\u00edcio reflexivo ser\u00e1 deixado para um outro texto-momento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif;\">A Rocha e o Velho, ou a Velha, apresentam-se para mim, desde a partida, como express\u00f5es da vida na Terra que partilham entre si a mesma constitui\u00e7\u00e3o \u201cEcoExistencial\u201d, i.e. o mesmo <em>eidos<\/em> ou as mesmas ess\u00eancias \u201cconstitutivas\u201d da sua Natureza enquanto seres \u201cvivos\u201d. Al\u00e9m disso, co-constituem-se, i.e. t\u00eam a capacidade m\u00fatua de serem dial\u00f3gicas e co-criativas, e por isso poderem \u201cperceber\u201d mutuamente a rela\u00e7\u00e3o que <span style=\"color: #d98c18;\">conseguem co-criar atrav\u00e9s do encontro entre as suas particulares dimens\u00f5es n\u00e3o-humanas e humanas, respectivamente.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif;\">Para nos guiarmos por esta explora\u00e7\u00e3o reflexiva\/ contemplativa, baseamo-nos nos fundamentos da Teoria de Gaia de James Lovelock (2006), uma vis\u00e3o oposta \u00e0 vis\u00e3o cartesiana e funcional mec\u00e2nica e utilit\u00e1ria da Natureza. Atrav\u00e9s desta perspectiva, vemos a Terra e os seus organismos (evidentemente sempre vivos) como um \u201csistema \u00fanico e auto-regulador composto de componentes f\u00edsicos, qu\u00edmicos, biol\u00f3gicos, e humanos\u201d. Segundo esta teoria, a Terra \u00e9 considerada um grande organismo vivo, uma entidade din\u00e2mica \u00fanica, dentro da qual interagem as partes materiais e vivas, e que, segundo Ribeiro &amp; Carvalho (2012), \u00e9-lhe intr\u00ednseca a tend\u00eancia a uma din\u00e2mica auto-sustentavel, capaz de sustentar a habitabilidade [e a \u201cco-viv\u00eancia\u201d] na sua melhor pot\u00eancia criativa, se houver reunidas as condi\u00e7\u00f5es envolventes circunstanciais e relacionais mais adequadas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif;\">A presente reflex\u00e3o ser\u00e1 baseada na explora\u00e7\u00e3o da minha viv\u00eancia subjectiva, e contudo seguir\u00e1 tamb\u00e9m o trilho deixado por alguns dos fil\u00f3sofos Existencialistas que mais influenciam a minha forma de pensar e estar no mundo, nomeadamente na minha pr\u00e1tica cl\u00ednica, como \u00e9 o caso de Martin Heidegger (2006) e o seu processo de devir humano \u201cinconclu\u00eddo\u201d at\u00e9 \u00e1 morte, Martin Bubber (2010) e a rela\u00e7\u00e3o total com o radicalmente \u201cOutro\u201d na sua radical diferen\u00e7a e na sua radical divindade, ou Emmanuel Levinas (1980) e a no\u00e7\u00e3o de uma \u201coutridade\u201d que contempla toda a totalidade do que existe e todo o infinito.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif;\">Nem sempre encontraremos respostas definitivas, e muito menos fechadas sobre si mesmas. Na verdade, como psicoterapeuta procuro activamente acima de tudo a viv\u00eancia, a problematiza\u00e7\u00e3o, e o questionamento, que \u00e9 <span style=\"color: #339966;\"><span style=\"color: #d98c18;\">uma forma de reflex\u00e3o e de completa abertura ao novo, ao desconhecido, e ao radicalmente<\/span> <span style=\"color: #d98c18;\">\u201coutro\u201d <\/span><\/span>que \u00e9 necessariamente diferente de mim, e isso j\u00e1 \u00e9 tudo o que nos bastar\u00e1 por agora. <span style=\"color: #d98c18;\">Questionar sob um fundamento te\u00f3rico e experiencial suficientemente seguro, ser\u00e1 o primeiro passo para o conhecimento de uma consci\u00eancia EcoPsicol\u00f3gica rumo a uma EcoPsicoterap\u00eautica, i.e. uma forma de Cuidado que \u00e9 Cura, Presen\u00e7a, e Encontro.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span> \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif;\">Procuro com a actual reflex\u00e3o, contribuir para uma outra forma de entendimento e experi\u00eancia do que \u00e9 sermos human@s, na procura desta nossa natureza humana que vai al\u00e9m do que denomino de Paradigma T\u00e9cnol\u00f3gico (obsoleto), rumo a um novo paradigma, por inspira\u00e7\u00e3o no conceito de Boaventura Sousa Santos (1987): o Paradigma Emergente, co-criativo, co-constituinte, e co-relacional.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_10616\" aria-describedby=\"caption-attachment-10616\" style=\"width: 453px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-10616\" src=\"https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Montejunto_Buraca_PT-1024x768.jpg\" alt=\"\" width=\"453\" height=\"340\" srcset=\"https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Montejunto_Buraca_PT-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Montejunto_Buraca_PT-300x225.jpg 300w, https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Montejunto_Buraca_PT-768x576.jpg 768w, https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Montejunto_Buraca_PT-696x522.jpg 696w, https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Montejunto_Buraca_PT-1068x801.jpg 1068w, https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Montejunto_Buraca_PT-560x420.jpg 560w, https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Montejunto_Buraca_PT-80x60.jpg 80w, https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Montejunto_Buraca_PT-265x198.jpg 265w\" sizes=\"auto, (max-width: 453px) 100vw, 453px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-10616\" class=\"wp-caption-text\">Rocha: Montejunto_Buraca. Portugal<\/figcaption><\/figure>\n<h4><span style=\"font-size: 14pt; color: #d98c18;\"><strong><em>Eidos:<\/em> Estrutura, sil\u00eancio, imobilidade, e transcend\u00eancia<\/strong><\/span><\/h4>\n<p><span style=\"font-size: 12pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif;\">Precisamos de estrutura. Tudo se ergue sobre algum tipo de estrutura. A Terra assenta numa estrutura rochosa, as pedras s\u00e3o os ossos que a sustentam, firmados por infinitos pontos de areia aglomerados pela for\u00e7a do tempo que compacta. Uma estrutura que \u00e9 um esqueleto, que lhe d\u00e1 forma e consist\u00eancia, que nos lembra a sua idade e a sua ascend\u00eancia, e que nos ensina sobre o que \u00e9 a resist\u00eancia e a resili\u00eancia. E os esqueletos t\u00eam uma ordem, onde a for\u00e7a do tipo de mat\u00e9ria e os movimentos se conjugam num equil\u00edbrio pr\u00f3prio, e conferem-lhe uma identidade. Tal como em n\u00f3s humanos, assim \u00e9 com as Rochas tamb\u00e9m. Somos estruturados pelo tempo que se fez hist\u00f3ria, e trazemos na mem\u00f3ria celular a hist\u00f3ria de quem nos formou e continua a formar. Um dia chegar\u00e1 em que tamb\u00e9m essa mesma estrutura voltar\u00e1 a desagregar-se de n\u00f3s, e em que tamb\u00e9m n\u00f3s voltaremos ao grau de areia, ao elemento primordial. <span style=\"color: #d98c18;\">Assim \u00e9 o movimento da vida, na rocha como no ser humano. \u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif;\">Al\u00e9m de firme, e co-dependente da sua seu fam\u00edlia de aglumerados, a Rocha \u00e9 silenciosa. Levou tempo a consolidar-se porque se soube manter em sil\u00eancio. <span style=\"color: #d98c18;\">Pacientemente no sil\u00eancio agregou-se<\/span>, atrav\u00e9s de ligas, que s\u00e3o parcerias, liga\u00e7\u00f5es, contratos, pontes mais firmes e s\u00f3lidas, ou menos, de apar\u00eancia \u00e1spera ou rugosa, e nem sempre de aspecto af\u00e1vel. <span style=\"color: #000000;\">Agregou-se porque se permitiu ser vulner\u00e1vel, na sua plasticidade porosa e mut\u00e1vel, porque aceitou ser tempo e vida em movimento.<\/span> Deu-se \u00e0 vulnerabilidade de quem se presta a escutar e a ser varrida pelo vento, pelo sal do mar, ou pela for\u00e7a oxidante do sol e de todas as temperaturas a que se permitiu expor. Deu-se \u00e1 decad\u00eancia atrav\u00e9s da eros\u00e3o, na mesma medida em que se deu \u00e1 cria\u00e7\u00e3o gloriosa. <span style=\"color: #d98c18;\">Silenciosamente na sua solenidade, a Rocha como o homem e a mulher que se d\u00e3o ao envelhecimento e ao tempo, ergue-se atrav\u00e9s de rela\u00e7\u00f5es de complementariedade em jogos de for\u00e7as em equil\u00edbrios e desequil\u00edbrios que geram uma homeostase confi\u00e1vel. A Rocha, assim como o Velho ou a Velha, ergue-se atravessando os mist\u00e9rios do sil\u00eancio, do tempo, e do espa\u00e7o.\u00a0 \u00a0\u00a0<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif;\">O sil\u00eancio \u00e9 a l\u00edngua da pedra. Nele contactamos com o \u201ctempo fora do tempo\u201d, que os Druidas acediam atrav\u00e9s dos seus Nematon, que os alquimistas procuravam nas suas Gnoses e \u201clab-Orat\u00f3rios\u201d, e que Jung resignificou atrav\u00e9s dos seus estudos sobre os Arqu\u00e9tipos. O sil\u00eancio das pedras convida-nos a perceber que existem outras dimens\u00f5es da exist\u00eancia a coexistirem com o mundo material, concreto da realidade aparente. O sil\u00eancio \u00e9 a ponte entre o concreto e o subtil, o elo coerente que comunica com o invis\u00edvel aos olhos e com o impalp\u00e1vel ao tacto. O sil\u00eancio \u00e9 a ponte que liga o real comunic\u00e1vel com o real incomunic\u00e1vel, e o mundo da vida factual com o mundo da experi\u00eancia subjectiva. Mas n\u00e3o podemos falar da experi\u00eancia da Rocha, porque a Rocha \u00e9 o radicalmente Outro, o radicalmente diferente, e a consci\u00eancia que conhecemos \u00e9 apelas a nossa: a consci\u00eancia de quem vivencia, de quem observa, e de quem se coloca em rela\u00e7\u00e3o. Falamos da nossa rela\u00e7\u00e3o com a vida em forma de Rocha, e s\u00f3 por si isso j\u00e1 ser\u00e1 suficiente para nos trazer muitas inquietantes quest\u00f5es. P.e. como poderemos criar uma rela\u00e7\u00e3o confi\u00e1vel e de parceria \u201csustent\u00e1vel\u201d com uma Rocha, sendo ela uma forma de vida que radica na diferen\u00e7a, apesar de apresentar constituintes comuns \u00e0 nossa experi\u00eancia humana? \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif;\">O sil\u00eancio lembra-nos de escutar al\u00e9m do som, al\u00e9m da palavra, e al\u00e9m do movimento. O sil\u00eancio \u00e9 a via directa para o contacto com os mist\u00e9rios da exist\u00eancia humana, e da Natureza de todas as coisas, para o encontro que se d\u00e1 al\u00e9m e aqu\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o e do encontro. <span style=\"color: #d98c18;\">\u00c9 no sil\u00eancio que escutamos os deuses e os dem\u00f3nios, as harpas e os tambores, mas tamb\u00e9m os espa\u00e7os vazios: aqueles que s\u00e3o lugares des-ocupados do sup\u00e9rfluo e do obsoleto.<\/span> Atrav\u00e9s do sil\u00eancio transcendemos as apar\u00eancias e a forma, e comunicamos com as ess\u00eancias, aquela dimens\u00e3o da consci\u00eancia que existe nas entrelinhas da rela\u00e7\u00e3o. Na Rocha, tal como no Ansi\u00e3o, e na Ansi\u00e3, o sil\u00eancio revela-se uma apar\u00eancia, e n\u00e3o necessariamente uma realidade. Pois \u00e9 nesse sil\u00eancio que tudo o que \u00e9 se revela na sua totalidade, e para isso basta aprendermos a escutar atrav\u00e9s desse mesmo sil\u00eancio, e de todos os aparentemente \u201cnadas\u201d, \u201cvazios\u201d, ou \u201cimobilidades\u201d.\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt; font-family: verdana, geneva, sans-serif;\">A aparente imobilidade e incomunicabilidade da Rocha, leva-nos a contactar com o que \u00e9 aparentemente imposs\u00edvel, limitado, restrito, ou inacess\u00edvel, e por isso, deixa-nos invariavelmente nas garras do paradoxo do que nos pode levar em simult\u00e2neo a sobrevoar, ou mesmo adentrar, por todos os meandros das possibilidades de transcend\u00eancia humana. Pois a transcend\u00eancia d\u00e1-se apenas no confronto com o aparentemente imposs\u00edvel ou inacess\u00edvel, no tete-a-tete com o instante do encontro com o misterioso: aquela passagem para l\u00e1 do tempo e do espa\u00e7o conhecido. <span style=\"color: #d98c18;\">Quantas vezes, tal como a Rocha, o Velho d\u00e1-se conta da sua transcend\u00eancia apenas quando se permite entrar nos campos \u00e1speros e duros da experi\u00eancia de envelhecer, onde s\u00f3 a\u00ed a supera\u00e7\u00e3o pode emergir e resgatar o poder da mudan\u00e7a e da transforma\u00e7\u00e3o radical: aquela que o devolve \u00e0 raiz da exist\u00eancia humana e terrena. <\/span>E que raiz \u00e9 esta que nos devolve \u00e0 nossa humanidade? Que raiz \u00e9 esta que nos alimenta o corpo e nos permite romper limites e limita\u00e7\u00f5es? Que constrangimentos poder\u00e3o ser condi\u00e7\u00e3o de supera\u00e7\u00e3o? E que for\u00e7a ter\u00e1 a heran\u00e7a da terra que nos ancora?<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_10620\" aria-describedby=\"caption-attachment-10620\" style=\"width: 573px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-10620\" src=\"https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Serra-de-Montejunto_PT-1024x768.jpg\" alt=\"\" width=\"573\" height=\"430\" srcset=\"https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Serra-de-Montejunto_PT-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Serra-de-Montejunto_PT-300x225.jpg 300w, https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Serra-de-Montejunto_PT-768x576.jpg 768w, https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Serra-de-Montejunto_PT-696x522.jpg 696w, https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Serra-de-Montejunto_PT-1068x801.jpg 1068w, https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Serra-de-Montejunto_PT-560x420.jpg 560w, https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Serra-de-Montejunto_PT-80x60.jpg 80w, https:\/\/ies.bio\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Rocha_Serra-de-Montejunto_PT-265x198.jpg 265w\" sizes=\"auto, (max-width: 573px) 100vw, 573px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-10620\" class=\"wp-caption-text\">Rocha: Serra de Montejunto. Portugal<\/figcaption><\/figure>\n<h4><span style=\"font-size: 14pt; color: #d98c18;\"><strong>A simultaneidade de tempos: Na procura da ess\u00eancia da sabedoria da vida &#8211; S\u00edntese ou Totalidade. <\/strong><\/span><\/h4>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Emerge a necessidade de resgatar a sabedoria da Rocha, tal como do Anci\u00e3o e da Ansi\u00e3, os nossos vener\u00e1veis Velhos, aqueles que transportam o conhecimento dos mist\u00e9rios da vida silenciosa, da transcend\u00eancia do tempo e do espa\u00e7o, e que nos ensinam sobre a natureza dos corpos terrenos, das suas estruturas e limites, simultaneamente.<span style=\"color: #d98c18;\"> Emerge a necessidade de resgatar a sabedoria da Rocha que \u00e9 a mesma que a sabedora do Velho no seu <em>eidos<\/em>, ou seja, na ess\u00eancia que caracteriza a natureza da vida, s\u00e1bia. <\/span>Emerge a necessidade de lembrar a import\u00e2ncia da aceita\u00e7\u00e3o do paradoxo e da co-exist\u00eancia dos aparentemente opostos (como vida e morte, ou corpo e alma), da diferen\u00e7a radical, do outro totalmente Outro e do infinito que nele cont\u00e9m.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">\u00c9 atrav\u00e9s do Velho, que resgatamos a nossa espinha dorsal, que nos ergue entre a terra e o c\u00e9u, as nossas m\u00e3os cuidadoras, e os nossos p\u00e9s que caminham rumo ao futuro, o cons\u00edlio dos extremos. S\u00f3 o Velho s\u00e1bio nos poder\u00e1 guiar, tal como a Rocha nos revela o caminho, a direc\u00e7\u00e3o, ou o abrigo. <span style=\"color: #d98c18;\">Do mesmo modo que o faz o Velho s\u00e1bio, a Rocha saber\u00e1 mostrar-nos as pontes mais s\u00f3lidas, onde poderemos edificar as nossas rela\u00e7\u00f5es mais s\u00e1bias.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">O Velho s\u00e1bio \u00e9 o feiticeiro, o mago, e o professor. \u00c9 aquele que consolidou as suas aprendizagens no aconchego da sua solid\u00e3o, transformando-as em sabedoria. O velho s\u00e1bio renunciou \u00e1 busca pelos prazeres ef\u00e9meros das flores da Primavera, e fez das geadas do Inverno o seu pal\u00e1cio de cristal. Igualmente ef\u00e9mero, porque sabe que ser Natureza \u00e9 aceitar o seu movimento perpetuamente c\u00edclico, por\u00e9m, um pal\u00e1cio de cristal \u00e9 o centro da sua exist\u00eancia, o seu lugar sagrado, edificado nos momentos em que as suas m\u00e3os rachavam de frio e a sua alma via mais al\u00e9m, al\u00e9m do tempo, do sil\u00eancio, e do vazio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">A Velha S\u00e1bia \u00e9 igualmente feiticeira, maga, e professora. Juntos representam a unidade perfeita. S\u00e3o lugares de sabedoria que vamos conhecendo com o tempo, e que habitam nas nossas experi\u00eancias humanas mais sublimes. S\u00e3o o depuramento ideal do que nos constitui seres humanos, mas sobretudo express\u00e3o da sabedoria da vida e sua renova\u00e7\u00e3o infinita. Se a for\u00e7a do Velho se deu na solid\u00e3o invernal, a for\u00e7a da Velha d\u00e1-se no abrigo que soube transformar em calor e aconchego, onde ela cura as suas feridas, onde recupera for\u00e7as no seu descanso, e onde aprofunda os seus conhecimentos noites adentro \u00e0 luz do fogo contido que aquece e transforma todos os alimentos. \u00c9 aqui o epicentro da vida, onde todas as coisas come\u00e7am e acabam, onde as transforma\u00e7\u00f5es acontecem ligadas \u00e0s for\u00e7as do centro da terra, onde ganham formas novas e criativas, e por isso \u00e9 de onde toda a luz se irradia para o mundo. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Tal como a Rocha, tanto o Velho como a Velha conquistam a sua sabedoria caminhando na roda do tempo, <span style=\"color: #d98c18;\">a partir do seu centro sagrado e das liga\u00e7\u00f5es que souberam criar entre compromissos sagrados, \u00e9ticos e est-\u00e9ticos: porque toda a \u00e9tica \u00e9 uma est\u00e9tica. <\/span>Num ir e vir que lembra a m\u00e3o da tecedeira, ou da costureira, os tempos tecem o espa\u00e7o, o espa\u00e7o torna-se corpo, e o corpo permite-se ser alma e esp\u00edrito e vida. O seu lugar ermita de recolhimento, sil\u00eancio, e mist\u00e9rio, longe das indispon\u00edveis modernidades ansiosas, \u00e9 o que lhes permite o foco essencial a este processo, que, tal como na gloriosa Rocha erguida, lhes dar\u00e1 mais \u00a0tarde ou mais cedo a vis\u00e3o de perspectiva da \u00e1guia que vislumbra e antecipa o futuro que vir\u00e1, assim como a melhor direc\u00e7\u00e3o a seguir. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">H\u00e1 por\u00e9m que referir que a Rocha, tal como o Velho, s\u00e3o em simult\u00e2neo, e paradoxalmente, ainda s\u00edmbolos de despojamento, simplicidade, e humildade. Ambos se despem das roupagens da ilus\u00e3o mundana, e se mostram rugosos ou \u00e1speros na sua nudez, e \u00e9 nesse despojamento que surgem as habilidades do professor e da professora que partilha o seu conhecimento com generosidade. <span style=\"color: #d98c18;\">\u00c9 nesta \u00faltima fase da jornada humana terrestre que dever\u00e1 surgir a vontade de se partilhar e de distribuir os seus valores por quem deles for merecedor e necessitado. No fim dos tempos, surgem todos os tempos anteriormente vividos, agora transformados em presente generoso.<\/span> Porque al\u00e9m de passado h\u00e1 a vis\u00e3o do porvir, do projecto, e do sonho, e s\u00f3 o Velho \u2013 como a Rocha \u2013 tem a capacidade de viver com mestria a alquimia dos tempos e transform\u00e1-los em Presente. Porque <span style=\"color: #d98c18;\">s\u00f3 o Velho tem tempo para se questionar<\/span>, e tem a respectiva ousadia para se colocar em perspectiva, e para aceitar as possibilidades de mudan\u00e7a. Porque <span style=\"color: #d98c18;\">s\u00f3 o Velho pode acertar que o fim nunca ser\u00e1 o fim, e que em cada fim est\u00e1 contido o seu come\u00e7o.<\/span> E em cada come\u00e7o, est\u00e1 um ponto de interroga\u00e7\u00e3o. Assim como em cada fim. \u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Por isso a quest\u00e3o \u00e9 o meio mais eficaz para a Cria\u00e7\u00e3o, e para o nascimento (e conclus\u00e3o) de uma obra, quer seja uma obra de arte, um poema, um processo terap\u00eautico, ou uma vida. <span style=\"color: #d98c18;\">Por isso, questionemo-nos, muito, tanto quanto formos capazes de suportar a inquietude das respostas, ou a aus\u00eancia delas.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Questionemo-nos: O que de n\u00f3s \u00e9 simultaneamente o vener\u00e1vel Velho e a digna e s\u00f3lida Rocha? O que de n\u00f3s \u00e9 tanto humano quanto mais-que-humano? Estaremos, n\u00f3s enquanto humanidade, preparad@s para aceitar essa dimens\u00e3o da exist\u00eancia que nos devolve \u00e0 consci\u00eancia de que somos Natureza indom\u00e1vel, Vida em movimento, mist\u00e9rio, sil\u00eancio, e transcend\u00eancia? E como poderemos dar-nos a essa consci\u00eancia que nos devolve \u00e0s nossas ra\u00edzes, aquelas que nos conectam \u00e0 vida primordial e ao organismo vivo que \u00e9 o nosso planeta?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Sobretudo, questionemo-nos: Estaremos n\u00f3s, humanos, realmente preparados para aceitarmos a nossa natureza rochosa, silenciosa e co-dependente de uma linhagem de aglomerados incont\u00e1veis? Como seriamos n\u00f3s, e o nosso mundo de rela\u00e7\u00f5es, se escut\u00e1ssemos em n\u00f3s a nossa dimens\u00e3o que nos permite ser realmente Velhas\/ Velhos e realmente Rochosas\/ Rochosos?\u00a0 O quanto de n\u00f3s seria capaz de ser realmente a simultaneidade de tempos que \u00e9 o tempo presente?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Questionemo-nos. Pois da aus\u00eancia nascer\u00e1 a presen\u00e7a do que \u00e9 inteiro, e o vislumbre da fa\u00edsca do que \u00e9 ser Sabedoria, S\u00edntese, Totalidade, e Rocha.\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\"><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Bubber, M. (2010). <em>I and thou<\/em>. London: Continuum.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Heidegger, M. (2006). <em>Ser e tempo<\/em>. (M. S. Schuback, Trad.). Petr\u00f3polis: Vozes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Husserl, E. (2001). <em>Medita\u00e7\u00f5es cartesianas<\/em>. Porto: R\u00e9s.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Levinas, E. (1988). <em>Totalidade e infinito<\/em>. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Lovelock, J. (2006). <em>A vingan\u00e7a de Gaia<\/em>. Rio de Janeiro: Intr\u00ednseca.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Ribeiro &amp; Carvalho (2012). <em>A era da t\u00e9cnica e a cat\u00e1strofe ecol\u00f3gica sob a perspectiva de Martin Heidegger<\/em>. Revista IGT na rede, V.9, nr16. In: http:\/\/ www.igt.psc.br\/ojs\/ISSN1807-2526.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 12pt;\">Santos, B. S. (1987). <em>Um discurso sobre as ci\u00eancias<\/em> (11\u00aa ed.). Porto: Edi\u00e7\u00f5es Afrontamento.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A teia da viv\u00eancia:\u00a0onde se funda a consci\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o e de n\u00f3s mesmos\u00a0 \u00a0 Tecendo uma vis\u00e3o Ecopsicol\u00f3gica, percebemos que explorar uma reflex\u00e3o sobre qualquer ser da Natureza conduzir-nos-\u00e1 sempre a uma reflex\u00e3o acerca de n\u00f3s mesm@s (quem observa e reflecte), porque percebemos correspond\u00eancias por analogia metaf\u00f3rica. 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